Intersolar 2022: as promessas que viraram realidade em 2026 — e as que não
A maior feira de energia solar da América Latina em 2022 fez sete promessas centrais pro mercado residencial. Em maio de 2026, dá pra fazer balanço honesto: quatro chegaram, três não chegaram. Quem fechou orçamento contando com as três que falharam pagou caro pela inovação que não veio.
Em agosto de 2022 fui à Intersolar South America em São Paulo, maior feira de energia solar da América Latina. Voltei com sete tecnologias anotadas em caderno como "futuro do solar residencial brasileiro". Quatro anos depois, no maio que estamos agora, dá pra fazer balanço honesto: das sete, quatro chegaram ao mercado residencial brasileiro de forma significativa. Três não chegaram.
Acerto de mercado em quatro anos: cerca de 57%. Razoável pra previsão de feira de tecnologia — mas não razoável pra cliente que decidiu fechar orçamento em 2023 acreditando que as sete iam chegar. Quem comprou contando com as três que não vieram pagou caro pela inovação que não desceu na cadeia.
Esse texto é o balanço dessas sete promessas. Onde elas estão hoje, quem cumpriu, quem não, e — pra quem está orçando solar em 2026 — quais "inovações" futuras de Intersolar 2026 vale ouvir e quais vale ignorar.
As 4 promessas que efetivamente chegaram
1. Módulo de 600W+ pra residencial. Em 2022 a barreira era 500W por placa. Foi anunciado em feira que módulos de 600W viriam pro residencial em 2 anos. Veio. Hoje em 2026, placas Trina 605W, Canadian 615W, JA Solar 620W estão em estoque normal de distribuidor brasileiro. Sistema de 5 kWp que em 2022 usava 12 placas de 420W hoje usa 8 placas de 620W. Menos estrutura, instalação mais rápida, igual eficiência. Cumpriu.
2. Microinversor com garantia 15 anos pra residencial. Em 2022, garantia padrão de microinversor era 10 anos. Apsystems anunciou plano de 15 anos como diferenciador. Cumpriu — DS3-D e séries seguintes saíram com 15 anos como padrão. Hoymiles seguiu. Mercado residencial brasileiro recebeu o equipamento que paga 25 anos de placa sem precisar trocar microinversor no meio do caminho. Foi uma das mudanças mais relevantes pro payback honesto.
3. Inversor híbrido residencial homologado ANEEL. A homologação saiu em 2022 mesmo, pouco antes da feira. Disponibilidade real no mercado residencial veio entre 2023 e 2024. Hoje em 2026 tem Growatt, Deye, Sungrow, Goodwe operando comercialmente. Custo ainda alto (sistema completo com bateria 10 kWh sai R$ 48-58 mil), mas mercado existe. Cumpriu — embora com adoção menor que a feira projetava (era pra ter explosão em 2024, foi adoção gradual até 2026).
4. Bateria LFP residencial nacional. Em 2022, bateria de íon de lítio fosfato (LFP, mais segura que NMC) chegava no Brasil só importada e cara. Promessa: produção nacional ou montagem em 2024. Cumpriu parcialmente — Moura começou em 2024, WEG entrou em 2025. Hoje em 2026 tem bateria LFP montagem nacional com preço 18-22% abaixo do importado. Ainda longe do barato, mas existe.
As 3 promessas que não chegaram (ou chegaram quebradas)
5. Placa bifacial com ganho 15-25% em residencial. Esta foi a promessa mais agressiva da Intersolar 2022. Placa bifacial — que capta luz refletida na face de trás — ia entregar ganho de 15% a 25% sobre placa monofacial no mesmo telhado. Em uso comercial e em fazenda solar, ganho real ficou em 4-8%. Em residencial — onde o telhado fica sobre laje ou madeirite escuros, sem reflexo — o ganho real ficou em 1-3%. Não compensa o sobrepreço de 18-25% que a placa bifacial cobra hoje. Promessa que entregou pra usina solar, mas não pra dono de casa.
Vendedor que ofereceu sistema bifacial residencial em 2023-2024 cobrou caro por ganho que não veio. Cliente que aceitou contar 22% de ganho extra na planilha de payback descobriu, dois anos depois, que economizou só o que economizaria com placa normal. Diferença de R$ 4-6 mil que ficou no bolso da empresa instaladora.
6. Conexão V2H (Vehicle-to-Home) — carro elétrico alimentando a casa. Foi a promessa mais sexy da feira. Cliente teria solar no telhado, carregaria carro elétrico de dia com o excedente, e à noite usaria a bateria do carro pra alimentar a casa (modo V2H). Promessa pra 2024. Em 2026, V2H residencial brasileiro não existe em operação comercial. Não tem regulação ANEEL pra conexão bidirecional veículo-casa. Não tem padrão de inversor V2H homologado no Brasil. Não tem modelo de carro elétrico vendido aqui com esse protocolo ativo.
Cliente que escolheu solar em 2023 contando "depois vou plugar o carro elétrico que alimenta a casa" planejou pra cenário que não chegou. Quem orçou sistema híbrido grande já antecipando V2H pagou por capacidade que não usa. Promessa furada — talvez chegue em 2030, talvez não.
7. Hidrogênio verde residencial via excedente solar. Essa era pra ser a fronteira: casa que gera solar de dia, eletrolisa hidrogênio do excedente, armazena, e usa o gás pra cozinhar ou aquecer água à noite. Anunciado pra entre 2027-2030 já em 2022. Em 2026, está exatamente onde estava: protótipo de pesquisa universitária, sem mercado residencial. Não vai chegar nessa década. Talvez na próxima.
O que o histórico de Intersolar 2022 ensina sobre as promessas de Intersolar 2026
A taxa de acerto de 57% em quatro anos não é ruim — feira é, por construção, otimista. Mas vale pra cliente que está orçando solar agora: quando o vendedor da Intersolar 2026 te apresentar tecnologia X como "vai dominar o mercado em 2028", trate isso como 50% de chance de cumprir. Não decida orçamento de 2026 contando com 100% do que feira está prometendo.
Regra prática: as promessas que se cumprem são as que envolvem evolução incremental de produto já estabelecido (módulo mais potente, garantia mais longa, bateria mais barata). As que não se cumprem são as que dependem de mudança regulatória ou novo ecossistema (V2H, hidrogênio, smart grid integrada). Se a promessa precisa que a ANEEL crie uma regulação que ainda não existe, ou que indústria automotiva adote um padrão novo, prepara expectativa pra 6-8 anos, não 2-4.
Solar residencial em 2026 vale a pena pelo que já está estabelecido: módulos eficientes, microinversores 15 anos, conexão on-grid madura, Lei 14.300 conhecida. Quem fechar orçamento contando com isso vai ter excelente investimento. Quem fechar contando com hidrogênio verde no telhado em 2029 vai ter desilusão paga em 2030.
Sou Laura Amorim, engenheira eletricista formada pela FEEC/Unicamp e fundadora da Jugaad Instalações em Campinas. Acompanho Intersolar desde 2018. Em 174 instalações Jugaad, todas usam tecnologia estabelecida — não promessa de feira. Se quiser entender quais tecnologias vale escolher hoje, e quais vale esperar 4-6 anos antes de comprar, o ebook Eu, Gerente Solar tem os 11 capítulos completos.
Sobre o autor
Engenheira Eletricista — Fundadora Jugaad Instalações
Engenheira eletricista pela Unicamp com 19 anos de experiência industrial na P&G (manutenção elétrica, IWS, OPL). Fundadora da Marves Jugaad Instalações Elétricas LTDA. Especialista em sistemas fotovoltaicos residenciais com 174+ instalações entregues entre 2024-2026 em Campinas, Jundiaí e região. Autora do ebook 'Eu, Gerente Solar' — método de blindagem do consumidor contra orçamentos inflados, dimensionamento errado e equipamentos inferiores.
- Engenheira Eletricista (Unicamp)
- CREA-SP
- 19 anos manutenção industrial P&G
- Especialista em sistemas fotovoltaicos residenciais