Softwares de simulação de energia solar: como usar antes de assinar orçamento
Existe um conjunto de softwares — PV*SOL, PVSyst, HelioScope — que faz a simulação 3D que separa um projeto solar bem dimensionado de uma estimativa de planilha. Considera sombreamento real do seu telhado, perdas elétricas e ângulo de cada placa. Muitos oferecem 30 dias de uso gratuito, então dá para simular o seu projeto antes de assinar qualquer orçamento. Quem entende o relatório fecha contrato com base, não com fé.
Tem uma pergunta que vendedor honesto consegue responder com número, e vendedor com pressa responde com adjetivo: "quanto o sistema vai gerar por mês no MEU telhado, considerando a árvore do vizinho que faz sombra às 16h e a inclinação real da água que ele vai usar?" Quem responde com "vai gerar bem" está chutando. Quem responde com um relatório de 12 páginas saído de um software de simulação está fazendo engenharia. A diferença entre os dois aparece na conta dois anos depois.
A tese deste texto: existe uma família de softwares específicos para simular geração solar, eles consideram sombreamento real, perdas elétricas, ângulo e orientação reais do seu telhado, e a maioria oferece versão gratuita por 30 dias. Saber que eles existem e pedir o relatório saído deles te coloca em outro patamar de conversa com o instalador — e te protege do orçamento "olho clínico".
Quais são os softwares e o que cada um faz
Três nomes dominam o mercado profissional. O PV*SOL, talvez o mais usado no Brasil para projetos residenciais, tem representação local (a Solarize, no Rio de Janeiro) e oferece 30 dias de avaliação gratuita. O fluxo dele é amigável: você coloca dados do cliente, dados do projeto, monta a casa em 3D, posiciona as placas, e o software gera relatório de produção mensal com cabeamento, inversor, perdas e custos estimados.
O PVSyst é o veterano — preferido em projetos comerciais e usinas, e usado em residenciais quando se quer profundidade técnica. Mais complexo de usar, gera relatórios densos que servem como prova técnica em financiamentos e em projetos exigentes. O HelioScope é a alternativa web, sem instalação, que ganhou tração nos últimos anos por ser leve e colaborativo. Os três fazem a mesma essência — diferem em interface, profundidade e preço da licença.
O que eles fazem que a planilha não faz
A diferença entre um cálculo de planilha (placa × irradiação × dias) e uma simulação 3D real é grande, e mora em três pontos. Primeiro: sombreamento. O software desenha o telhado em três dimensões, posiciona árvores, prédios vizinhos, caixa d'água, e simula a sombra de cada um ao longo do dia e do ano. Uma placa que recebe sombra duas horas por tarde no inverno gera consideravelmente menos do que aparece na planilha simples.
Segundo: perdas elétricas reais. Cabo tem resistência, conector tem perda, inversor tem eficiência de conversão. O software incorpora cada uma dessas perdas com os valores reais dos componentes que você vai usar, não com chute. Terceiro: irradiação local detalhada. Em vez de pegar a média do Brasil, ele usa o dado da sua latitude e da sua região específica — no caso da nossa, dá pra cruzar com a base do LABREN/INPE pra valores ainda mais precisos. Esses três pontos, somados, explicam por que o resultado de uma simulação séria às vezes derruba uma proposta otimista em 15-25%.
Como usar antes de assinar orçamento
Vou direto na recomendação prática. Quando uma empresa te apresentar uma proposta de energia solar, peça o relatório de simulação que sustenta o número de geração mensal informado. Empresa séria já roda essa simulação por padrão e te entrega o PDF de 8-12 páginas sem pestanejar — geralmente saído de PV*SOL ou PVSyst, com o seu endereço, as suas coordenadas, a sua casa modelada em 3D, e o gráfico mensal de geração esperada. Esse relatório é o instrumento que separa um projeto sério de uma estimativa de plantão.
Se a empresa não tiver o relatório, ou disser que "não precisa pra residencial", esse é um sinal. Pode até ser que pra um projeto bem simples (telhado norte limpo, sem sombra, sistema padrão) o relatório seja overkill — mas pra a maioria dos casos brasileiros, onde tem sombra de árvore ou de prédio vizinho, telhado com várias águas ou orientação não-ideal, simulação 3D faz diferença material no resultado. Pra você, leitor que quer ser gerente do próprio sistema, o teste é simples: pede o relatório. Quem entrega te trata como cliente; quem foge te trata como assinatura de contrato.
Escrito por Laura Amorim, engenheira eletricista (FEEC/Unicamp), 174 sistemas solares residenciais simulados e instalados desde 2018 na região de Campinas e Jundiaí. Os softwares citados têm condições de avaliação que mudam — confirme no site do fabricante na hora de testar. Pra entender por que orientação do telhado importa mais que inclinação exata, leia "Qual a inclinação correta do painel solar".
Sobre o autor
Engenheira Eletricista — Fundadora Jugaad Instalações
Engenheira eletricista pela Unicamp com 19 anos de experiência industrial na P&G (manutenção elétrica, IWS, OPL). Fundadora da Marves Jugaad Instalações Elétricas LTDA. Especialista em sistemas fotovoltaicos residenciais com 174+ instalações entregues entre 2024-2026 em Campinas, Jundiaí e região. Autora do ebook 'Eu, Gerente Solar' — método de blindagem do consumidor contra orçamentos inflados, dimensionamento errado e equipamentos inferiores.
- Engenheira Eletricista (Unicamp)
- CREA-SP
- 19 anos manutenção industrial P&G
- Especialista em sistemas fotovoltaicos residenciais